... e ela, que era feita de sonhos, voou como nunca havia cogitado. Com asas, que pareciam físicas, chegou a sentir o vento a bater em seu rosto, e a leveza do corpo que flutuava na imensidão daquele azul que se fez presente assim que ele chegou.
Era feliz, e se permitiu isso.
Sentiu medo ao perder o controle. Quando já se encontrava nas nuvens, olhou pro chão e teve vontade de voltar, tamanho era o medo de cair...
Mas havia algo, na maneira como ele chegara, e construira morada em seu ser, que lhe fazia crer que era aquele o momento de sorrir incansavelmente, e voar, tão alto quanto seu sonho pudesse alcansar.
Era leve sua alma. Era completo seu corpo.
(...)
E ele partiu.
Ela lutou, com todas as forças, e armas, e paixão que nela residiam. Até que resignou-se, como se nada mais pudesse fazer. Não por covardia, mas por medo de feri-lo de fato.
E esperou, esperou... O olhar de outrora, e o beijo de desejo, e o abraço de entrega. (...)
E agora sentia-se cair das nuvens, sem perceber onde e em qual momento perdeu as asas pelo caminho.

Ela com suas asas...
E enquanto isso, ele, do outro lado da cidade, buscando não trair a si mesmo, continua com os pés fincados no chão. Raízes fortes e parcialmente inquebrantáveis.
Ele, que ousou tentar, uma, duas, tantas vezes voar. Não conseguira mais uma vez.
Pois soterrava a leveza necessária para erguer-se do solo, com mil possibilidades, e objetivos, e conceitos destinados por si mesmo à imutabilidade.
Permanecia, assim, entre o sim e o não. Não era verdadeiramente adepto das escolhas, e não necessitava de grandes explicações. Bastava-se. Movia-se conforme o vento, mas não despregava os pés do chão.
Trancado em si mesmo.
Bastava-se.
(...)
Chegou a pensar em se jogar. sentiu a leveza da alma. Ouviu seu coração bater mais forte. Mas quando as raízes começaram a se soltar, assustou-se. E preferiu continuar a sonhar com asas distantes e ausentes e idealizadas.
(...)
Ele, mais uma vez, enganou-se.
Mas as asas estavam tão próximas, jogadas no canto esquerdo do lugar onde ele se encontrava. Quase ao alcance de suas mãos.
Não libertou-se das raízes. Não vestiu as asas. Não voou.
deixou que essas, aos poucos fossem carregadas de vagar, pelo vento. Indo embora... indo embora... indo embora...
- Postado por: Juliana Marques às 8h57 AM
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